Coisas de que me lembro às vezes

Turtuk, 16 de Agosto, manhã.

Mohammad sobe os pequenos degraus para o jardim, junto ao meu quarto. Sorri, pousa o tabuleiro e senta-se à minha frente, debaixo do velho pára-quedas militar que faz sombra sobre a mesa. Pão balti, ou hamir, um ovo mexido bem aconchegado dentro de uma taça e uma chávena de chai, ou chá fervido com leite e especiarias.
Não consigo beber leite de manhã. Dá-me volta ao estomago. Na verdade, não gosto de leite sequer. Pior ainda, se for salgado e batido com manteiga. Faço um esforço quando me é oferecido na casa de alguém, ou por um monge, num mosteiro. Se me é dado por bem, não me pode fazer mal, é o que eu penso.
Mas não ao pequeno-almoço. E o estômago já o trago às voltas há vários dias.

Pão balti, ou hamir, um ovo mexido bem aconchegado dentro de uma taça e uma chávena de chai, ou chá fervido com leite e especiarias.

Pão balti, ou hamir, um ovo mexido bem aconchegado dentro de uma taça e uma chávena de chai, ou chá fervido com leite e especiarias.

Mohammad voltou a casa, uns metros mais acima. Disse-lhe que não bebia leite enquanto franzia o sobrolho, apontando para a chávena e depois para a barriga.
Regressa algum tempo depois com um termos de chá preto. Senta-se de novo. É um sentar cerimonioso, de bom anfitrião. Faz questão em servir-me o chá acabado de fazer. Debruça-se em terno protocolo, de termos tombado sobre a chávena.
Pousa o termos e encosta-se depois para trás, as mãos sobre o colo. Por vezes olha para baixo, com receio de ser demasiado intrusivo. Envolve as mãos, grandes e secas, uma contra a outra em movimentos circulares, para disfarçar de si mesmo o desconforto da timidez.
Percebo que não me quer deixar sozinho e agradeço-lhe a companhia.
Mohammad fala pouco. Não porque não lhe apeteça, mesmo não sendo grande falador, mas porque são poucas as palavras que reconhece em inglês. Eu tão pouco falo Balti, Hindi ou Urdu, mas com o tempo, a viajar, fui-me habituando a falar um inglês mais acessível para quem não fala inglês. Palavras soltas, sem construção frásica, de preferência com o sotaque da região: “Mahmad, You, Born, Turtuk?” aponto para ele e depois para o chão aos nossos pés. Mohammad abre as mãos, acenando afirmativamente, de sorriso aberto e genuino. Está feliz por ter entendido a pergunta e por poder responder. Aos poucos, lá nos vamos entendendo.

Muhammad Amin à minha frente, no seu jardim, Turtuk

Muhammad Amin no seu jardim, Turtuk, Ladakh, India

Mohammad Amin nasceu aqui há 56 anos. Nessa altura, Turtuk era Paquistão. A India não tinha sido dividida hà muito tempo entre o Paquisão Oriental (mais tarde Bangladesh) e o Paquistão Ocidental (o actual Paquistão), após a descolonização inglesa.
A seguir veio a invasão, em 1971, durante a guerra Indo-Paquistanesa. Mohammad tinha 11 anos. Agora é cidadão Indiano e nunca saiu do mesmo lugar. Quando aqui nasceram, os seus pais e os seus avós eram indianos também.
Alguns dos amigos dos seus pais, residentes de Turtuk desde a nascença, viram-no crescer até a guerra acontecer, depois partiram para outros lugares do Baltistão, em busca de dias melhores, e não puderam regressar a Turtuk (pelo menos até 2013), por terem passaporte paquistanês. A fronteira com o Paquistão fica hoje a uns escassos 7 Km de distância daqui, mas para visitar as aldeias vizinhas teriamos que percorrer mais de 1500 Km, atravessando a fronteira a Sul, em Amritsar, e subindo de novo até ao Baltistão pelo lado paquistanês.

Mohammad tem um olhar doce que me lembra o meu avô materno. Os homens de olhar doce lembram-me sempre o meu avô.
É estranho sentir que não guardo a mesma memória do meu pai. Três anos depois da sua morte, recordo apenas os últimos meses da sua vida. Os longos dias em que, sem se despedir, se despedia de tudo, e o sofrimento lhe tornara o olhar mais doce, mais distante e mais apagado. Nunca antes lhe tinha visto um olhar tão doce. Nunca antes vira alguém aguentar tanto sofrimento.
Estava deitado ao lado dele quando o vi morrer.
Agora os homens de olhar distante e apagado e lembram-me sempre o meu pai.
Recordam-me da doença que o consumia por dentro e os médicos que por fora lhe iam tirando a esperança. Guardo a lembrança dos dias longos, de ter aprendido como se vive um dia de cada vez, das consultas de Oncologia onde era tratado por seres de bata branca que muito entendiam de protocolos e células e procedimentos, e muito pouco de seres humanos e do seu sofrimento. Por momentos, vem-me a imagem de um deles, baixinho, de face pueril, escondida por detrás da barba negra e da bata branca, de trato ríspido, cobarde e insensível. Um menino bem a tratar dos doentinhos, um sr.doutor, como no tempo da outra senhora. O meu pai aquiescendo sempre, servil, com a pouca força que lhe restava no corpo. Sempre pensei, se aquele médico não estaria melhor a trabalhar num matadouro. Infelizmente, a medicina escolhe-se pelas notas, não necessáriamente pelas qualidades humanas.
Foi o Budismo, que aprendi por estas montanhas, que me ensinou a perdoar-lhe o trato e a cobardia, imaginando profundo o seu sofrimento, reconhecendo-lhe apesar de tudo o direito a ser feliz.

Turtuk, fotografada por uma criança com o meu iphone

Vista de Turtuk, fotografada por uma criança com o meu iphone. Ao fundo, a cordilheira de Karakorum, no Paquistão.

Num concordar de gestos e de olhares, Mohammad de mãos grandes e sorriso aberto serve-me mais chá. As memórias trouxeram-me o silêncio. Pelo menos do lado de fora. Mas a expressão de Mohammad traz-me de volta o sorriso.

Foi a viajar que levei os pensamentos para longe da morte. Foram as pessoas que conheci pelo caminho, que me ajudaram a acreditar de novo nos seres humanos. Acredito que há homens bons e maus homens em todos os lugares, assim como médicos bons em todas as partes. Disso tenho a certeza. Aprendi também, sempre que as memórias me assaltam os bons momentos, a trazer comigo a recordação da minha mãe, e das enfermeiras que cuidaram do meu pai – os maiores exemplos de humanidade e de compaixão que presenciei até hoje.

A partilhar fotos de viagem.

Em Turtuk, a partilhar fotos de viagem.

Mohammad olha para mim em silêncio. Não vale a pena explicar-lhe o que estou a pensar. Nem muito menos o que estou a sentir. Prefiro continuar a conversa e regressar de novo aqui. Ao olhar doce de Mohammad, à sua mulher, agora com 46 anos, que lhe deu quatro filhos e três filhas. Um dos filhos está casado e é polícia em Jammu. O outro é militar, está em casa de licença e sentou-se comigo aqui, ontem à noite, antes de eu me ir deitar. Perguntei-lhe se aos 27 anos não tinha já uma namorada. Corou, encolheu-se e respondeu-me que não, que isso é coisa em que ainda não pensa. Os irmãos mais novos, de 16 e 19 riem-se ainda mais quando os provoco com a pergunta. Falar de mulheres aqui parece conversa do outro mundo. E na verdade, não deixa de o ser.

Foi Mohammad que plantou este belo jardim. É ele que cuida das flores.
O meu avô sempre gostou de flores. O meu pai dava flores à minha mãe em dias especiais. A minha avó ensinava-me a cuidar delas.
Sempre gostei de flores. E hoje lembram-me a minha avó.
Se voltasse a ter uma casa, teria de novo um jardim. Tenho saudades da minha avó.
As mulheres da minha vida sempre me ofereçeram flores.
São coisas de que me lembro às vezes.
Às vezes também me pergunto porque viajo. Talvez seja para fugir da morte.
Fujo por certo de uma certa morte.

Mohammad desenrosca a tampa do termos.
Um dia, em Manali, uma vidente disse-me que o meu pai estava ali para me dizer que estava bem. Que não me preocupasse. Que todo o sofrimento por que tinha passado ficara para trás. Que estava num lugar melhor. E eu, que não tinha perguntado nada, nem lhe tinha dito nada sobre mim, chorei pela primeira vez desde a sua morte.
Às vezes pergunto-me se o voltarei a encontrar. E se nos encontrarmos, se terá o olhar mais doce, como o do meu avô.

Mais chá? pergunta Mohammad em silêncio, tombando o termos com um sorriso.
Claro que sim, agradeço-lhe sorrindo também sem palavras.
É engraçado como por vezes dizemos tudo com o simples estender de uma chávena.

Com a minha avó em Alpiarça, a cheirar as flores na primavera.

Com a minha avó em Alpiarça, a cheirar as flores na primavera.

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